Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "Meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
INTERPRETANDO O POEMA
O Lácio, cuja capital é Roma, é uma região da Itália. Bilac chamou a Língua Portuguesa de última flor do Lácio por ter sido a última língua a ser derivada do Latim, idioma falado, na época, na região italiana do Lácio. Inculta, talvez, porque a LP era falada pelo povo considerado “plebe”, que usava o Latim Vulgar, já que o Latim Culto era de domínio apenas do clero. “És, a um tempo, esplendor e sepultura;”: esplendor porque rapidamente passou a se espalhar entre os povos, e sepultura porque, com a sua popularidade, o Latim passou a cair em desuso. Nos versos 3 e 4, é chamada de ouro, pela sua riqueza e valor, que mesmo na “ganga impura” (ganga são as impurezas encontradas nos minérios), protege (vela) a bruta mina, ou seja, se havia nela “impureza”, é porque ainda não era tão falada como suas irmãs mais velhas (Italiano, Francês, Espanhol), mas mesmo não sendo pura, cuida da bruta mina (a linguagem?), sugerindo o eu lírico, assim, que ela em breve seria tão ou mais valiosa que suas irmãs...
Na 2ª estrofe, o eu poético continua afirmando que, apesar de a LP ainda ser desconhecida, seu destaque é tão evidente como sons instrumentais altos (clangor), mas afinadíssimos e agradáveis (lira singela). Então, ela é comparada à força da tempestade “que tens o tom e o silvo da procela (tempestade)” e, ao mesmo tempo, à suavidade e singeleza da ternura, levando-nos a pensar que, como qualquer outra língua, a LP, mesmo sendo, na época, um embrião, se comparada com as outras, já tinha as mesmas forças comunicativas que qualquer outra língua pode ter, seja antiga ou não.
Na 3ª estrofe, parece-nos que o eu lírico faz referência às terras brasileiras inexploradas (virgens selvas), e cujos exploradores viriam através dos oceanos. “Amo-te, ó rude e doloroso idioma”: rude, por ainda estar sendo trabalhado pelos povos; doloroso, talvez, porque, para que ele fosse usado por muitos, muitas outras línguas e culturas “tiveram” que ser destruídas...
Na 4ª estrofe, o vocativo “meu filho” pode estar se referindo ao fato de Olavo Bilac ser filho do Brasil e, assim, considerar a LP como sua mãe. Por fim, Camões – até hoje o maior poeta de Portugal, apesar de ter vivido no século XVI, e a maior referência da LP, é citado em seu exílio passado nas colônias portuguesas da África e da Ásia, e de onde surgiu a maior epopeia sobre a LP, Os Lusíadas, que narram a história de Portugal.
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